TRAUMA, CONTROLE COERCITIVO E COLHEITA PROBATÓRIA: AS LACUNAS CLÍNICAS DA RESOLUÇÃO CNJ N.º 679/2026 EM CAUSAS DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA
DOI:
https://doi.org/10.62248/b5dh3m02Palavras-chave:
Violência doméstica. Trauma psicológico. Controle coercitivo. Colheita probatória. Tutela diferenciada.Resumo
O artigo examina a lacuna regulatória da Resolução CNJ n.º 679/2026, que fixou a presencialidade como regra para a oitiva de vítimas de violência doméstica sem disciplinar as condições clínicas que a neurobiologia do trauma e a teoria do controle coercitivo identificam como determinantes da confiabilidade do depoimento. Por método hipotético-dedutivo e suporte transdisciplinar, conclui-se que a coerção sobre a narrativa da vítima é ambiental e relacional, e não modal, e que o magistrado dispõe, nos instrumentos normativos vigentes, de fundamentação suficiente para operacionalizar a exceção telepresencial quando as condições presenciais forem clinicamente insuficientes para neutralizar o aprisionamento estrutural da vítima.
Referências
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION (APA). Diagnostic and statistical manual of mental disorders: DSM-III. 3. ed. Washington, DC: American Psychiatric Association, 1980.
ÁVILA, Thiago André Pierobom de. Violência contra a mulher: consequências da perspectiva de gênero na política criminal de policiamento. Revista da Faculdade de Direito da UFPR, Curitiba, v. 62, n. 3, p. 103-132, set./dez. 2017. Disponível em: https://revistas.ufpr.br/direito/article/view/51841. Acesso em: 17 mai. 2026.
BARROS, Isabelle Barreto Santos; STEFANINI, Marília Rulli; CARNEIRO, Vinicius Barreto. O depoimento especial e a preservação do processo penal como um instrumento de garantia de todos: a necessidade de depoimento especial para mulheres adultas vítimas de violência doméstica. Revista Jurídica Luso-Brasileira, Lisboa, ano 10, n. 2, p. 565-585, 2024. Disponível em: https://www.cidp.pt/revistas/rjlb/2024/2/2024_02_0565_0585.pdf. Acesso em: 17 mai. 2026.
BIANCHINI, Alice. Lei Maria da Penha: Lei nº 11.340/2006: aspectos assistenciais, protetivos e criminais da violência de gênero. 4. ed. São Paulo: Saraiva, 2018.
BRAMBILLA, Beatriz Borges et al. Desmistificando o ciclo da violência doméstica contra as mulheres. Revista Contemporânea, v. 5, n. 11, p. 1-27, 2025. DOI: 10.56083/RCV5N11-038. Disponível em: https://ojs.revistacontemporanea.com/ojs/index.php/home/article/view/9556. Acesso em: 17 mai. 2026.
BRASIL. Conselho Nacional de Justiça. Enunciados do Fórum Nacional de Juízas e Juízes de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher — FONAVID, atualizados até o XVII
FONAVID. São Luís: FONAVID, nov. 2025. Disponível em: https://www.tjpr.jus.br/web/cevid/enunciados-fonavid. Acesso em: 1 maio 2026.
BRASIL. Conselho Nacional de Justiça. Pedido de Providências n.º 0002221-09.2025.2.00.0000. Relator: Conselheiro Ulisses Rabaneda. Julgado em: 14 abr. 2026. 5.ª Sessão Ordinária de 2026. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=XlCuBj0RiSk. Acesso em: 18 abr. 2026.
BRASIL. Conselho Nacional de Justiça. Protocolo para Julgamento com Perspectiva de Gênero. Brasília: CNJ; ENFAM, 2021.
BRASIL. Conselho Nacional de Justiça. Resolução n.º 354, de 19 de novembro de 2020. Dispõe sobre a realização de audiências e sessões por videoconferência e em formato telepresencial no âmbito do Poder Judiciário nacional durante o estado de emergência de saúde pública. Brasília: CNJ, 2020.
BRASIL. Conselho Nacional de Justiça. Resolução n.º 679, de 4 de maio de 2026. Altera a Resolução CNJ n.º 354/2020 para disciplinar o tratamento dos casos de violência doméstica e familiar contra a mulher. Diário da Justiça Eletrônico — DJe/CNJ, n. 101/2026, p. 2-3, 6 maio 2026. Disponível em: https://atos.cnj.jus.br/atos/detalhar/6890. Acesso em: 10 maio 2026.
BRASIL. Conselho Nacional de Justiça. Resolução n.º 492, de 17 de março de 2023. Brasília: CNJ, 2023.
BRASIL. Lei n.º 11.340, de 7 de agosto de 2006. Cria mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher. Diário Oficial da União, Brasília, 8 ago. 2006.
BRASIL. Lei n.º 13.431, de 4 de abril de 2017. Estabelece o sistema de garantia de direitos da criança e do adolescente vítima ou testemunha de violência. Diário Oficial da União, Brasília, 5 abr. 2017.
BRASIL. Lei n.º 13.505, de 8 de novembro de 2017. Acrescenta dispositivos à Lei n.º 11.340, de 7 de agosto de 2006. Diário Oficial da União, Brasília, 9 nov. 2017.
BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. REsp 1.977.547/MG. Relator: Min. Reynaldo Soares da Fonseca. 3.ª Seção. Recurso Repetitivo — Tema 1.167. DJe 14.03.2023.
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. ADI 7.267/DF. Relator: Min. Edson Fachin. Tribunal Pleno. DJe 11.09.2023.
BRASIL. TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO DISTRITO FEDERAL E DOS TERRITÓRIOS (TJDFT). Agressor é preso após ser identificado durante audiência de Lei Maria da Penha. Brasília, DF, 2025. Disponível em:https://www.tjdft.jus.br/institucional/imprensa/noticias/2025/abril/agressor-e-preso-apos-ser-identificado-durante-audiencia-de-lei-maria-da-penha. Acesso em: 9 mai. 2026.
CORTE INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS (CIDH). Caso Barbosa de Souza e outros vs. Brasil. Exceções Preliminares, Fundo, Reparações e Custas. Sentença de 22 de setembro de 2023. Série C n. 519. San José: Corte IDH, 2023.
CUNHA, Rogério Sanches; PINTO, Ronaldo Batista. Violência doméstica: Lei Maria da Penha comentada artigo por artigo. 10. ed. Salvador: JusPodivm, 2024.
DATASENADO; OBSERVATÓRIO DA MULHER CONTRA A VIOLÊNCIA. Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher. 11. ed. Brasília: Senado Federal, 2024.
DIAS, Maria Berenice. A Lei Maria da Penha na justiça: a efetividade da Lei 11.340/2006 de combate à violência doméstica e familiar contra a mulher. 8. ed. Salvador: JusPodivm, 2023.
DUTTON, Donald G.; PAINTER, Susan L. Traumatic bonding: the development of emotional attachments in battered women and other relationships of intermittent abuse. Victimology: An International Journal, v. 6, n. 1-4, p. 139-155, 1981. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/284119047_Traumatic_bonding_The_development_of_emotional_attachments_in_battered_women_and_other_relationships_of_intermittent_abuse. Acesso em: 9 maio 2026.
FREUD, Sigmund; BREUER, Josef. Estudos sobre a histeria (1893-1895). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
FREITAS, Juarez. Direito fundamental à boa administração pública. 3. ed. São Paulo: Malheiros, 2014.
FREITAS, Juarez. As políticas públicas e o direito fundamental à boa administração. Revista do Programa de Pós-Graduação em Direito da UFC, Fortaleza, v. 35, n. 1, p. 195-217, jan./jun. 2015. Disponível em: https://repositorio.ufc.br/ri/handle/riufc/21688. Acesso em: 17 mai. 2026.
HERMAN, Judith Lewis. Trauma and recovery: the aftermath of violence — from domestic abuse to political terror. New York: Basic Books, 1992.
HIRIGOYEN, Marie-France. A violência no casal: da coação psicológica à agressão física. Tradução de Maria Helena Kühner. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2006.
INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA (IPEA); FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA (FBSP). Atlas da Violência 2025. Brasília: IPEA; FBSP, 2025.
LIMA, Ana Flávia Sousa; SOUSA, Bianca Maria Veloso de; COELHO, Maria Socorro Rodrigues. De Gabriela, cravo e canela à atualidade: a violência doméstica, a dependência financeira e os desafios das medidas protetivas no Brasil. Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação — REASE, São Paulo, v. 11, n. 3, p. 413-434, mar. 2025. DOI: 10.51891/rease.v11i3.18302. Disponível em: https://periodicorease.pro.br/rease/article/view/18302. Acesso em: 17 mai. 2026.
ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Comitê para a Eliminação da Discriminação contra a Mulher (CEDAW). Recomendação Geral n. 35 sobre violência de gênero contra as mulheres. Genebra: ONU, 2017.
ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Comitê para a Eliminação da Discriminação contra a Mulher (CEDAW). Recomendação Geral n. 33 sobre o acesso das mulheres à justiça. Genebra: ONU, 2015.
ORGANIZAÇÃO DOS ESTADOS AMERICANOS. Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher (Convenção de Belém do Pará). Washington, D.C.: OEA, 1994. Promulgada no Brasil pelo Decreto n. 1.973, de 1.º ago. 1996.
PEREIRA, Ana Alice; et al. Estigma dirigido a pessoas com transtornos mentais: uma proposta para a formação médica do século XXI. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, São Paulo, v. 25, n. 2, p. 383-406, 2022. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rlpf/a/ydsyvTxzYNHLXGfN5QNZVkx/?lang=pt. Acesso em: 9 maio 2026.
SAPOLSKY, Robert M. Why zebras don’t get ulcers. 3. ed. New York: Henry Holt and Company, 2004.
SARLET, Ingo Wolfgang. A eficácia dos direitos fundamentais. 14. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2023.
STARK, Evan. Coercive control: how men entrap women in personal life. New York: Oxford University Press, 2007.
STARK, Evan. The dangers of dangerousness assessment. Family & Intimate Partner Violence Quarterly, Kingston, v. 6, n. 2, p. 13-21, 2013. Disponível em: https://www.ncdsv.org/uploads/1/4/2/2/142238266/fipvq_dangers-of-dangerousness-assessment_11-20-2013.pdf. Acesso em: 17 mai. 2026.
STRECK, Lenio Luiz. Jurisdição constitucional. 6. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2023.
VAN DER KOLK, Bessel. O corpo guarda as marcas: cérebro, mente e corpo na cura do trauma. Rio de Janeiro: Alta Books, 2020.
VAN DER KOLK, Bessel A. Posttraumatic stress disorder and the nature of trauma. Dialogues in Clinical Neuroscience, v. 2, n. 1, p. 7-22, 2000. DOI: 10.31887/DCNS.2000.2.1/bvdkolk. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC3181584/. Acesso em: 17 mai. 2026.
VAN DER KOLK, Bessel A.; FISLER, Rita. Dissociation and the fragmentary nature of traumatic memories: overview and exploratory study. Journal of Traumatic Stress, Hoboken, v. 8, n. 4, p. 505-525, 1995. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/8564271/. Acesso em: 17 mai. 2026.
VAN DER KOLK, Bessel A.; PELCOVITZ, David; ROTH, Susan; MANDEL, Francine S.; McFARLANE, Alexander; HERMAN, Judith L. Dissociation, affect dysregulation and somatization: the complex nature of adaptation to trauma. American Journal of Psychiatry, v. 153, Suppl. 7, p. 83-93, 1996. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/8659645/. Acesso em: 17 mai. 2026.
WALKER, Lenore E. The battered woman. New York: Harper & Row, 1979.
Publicado
Edição
Seção
Licença
Copyright (c) 2026 RAFAEL DA SILVA MELO GLATZL , KEYLLA DOS ANJOS MELO GLATZL (Autor)

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivatives 4.0 International License.









